Faz Hoje 5 Semanas que Deixei de Fumar
Faz Hoje 5 Semanas que Deixei de Fumar
Ontem, saà do hospital como quem sai de uma igreja depois de uma missa longa: um bocadinho mais leve, um bocadinho mais sério, e com a sensação estranha de que alguma coisa importante aconteceu sem eu dar por isso. O coração, que sempre achei um órgão discreto — ali a bater como um funcionário público exemplar — afinal tinha segredos.
Guardou-os durante os últimos anos e resolveu revelá-los depois de eu deixar de fumar. Não gostou dessa minha atitude! Há ironias assim: largamos um vÃcio e ganhamos uma verdade.
Descobri, portanto, que o tabaco já me tinha “dado” um historial cardÃaco. Não o tinha ontem, não o pedi, mas agora faz parte de mim, como os óculos de leitura ou a memória das canções que nunca mais nos saem da cabeça. O curioso é que isso não me encolheu o futuro. Pelo contrário. Vejo-o sem tabaco, o que já é uma espécie de milagre moderno, e vejo-o cheio de aventuras. Aventuras pequenas, que são as melhores: andar, conversar, rir, ir mais devagar e chegar mais longe.
O Hospital de Évora foi, durante estas 2 semanas, uma espécie de aldeia provisória onde toda a gente trabalha para que os outros continuem vivos — o que é um ofÃcio respeitável. Fica aqui um agradecimento coletivo, simples e inteiro, a todos os profissionais: auxiliares, enfermeiros, técnicos, médicos, e muito especialmente ao serviço de cardiologia. Há uma humanidade tranquila em quem cuida do coração dos outros todos os dias, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Talvez seja.
E depois há as pessoas que se conhecem por acaso, entre paredes brancas e horários de medicação. Fiz amizade com alguém que ainda se mantêm internado, mas sei que ainda nos iremos rir muito (tal como aconteceu no hospital): um jovem de 80 anos. Digo jovem porque a idade verdadeira mede-se na curiosidade, na graça, na vontade de contar histórias. Conhecer alguém assim é uma maravilha inesperada, dessas que só acontecem quando somos obrigados a parar. O hospital, que nos prende, também nos apresenta.
Saio, portanto, com o coração mais vigiado e a vida mais aberta. Sem tabaco, com cicatrizes invisÃveis, com gratidão e com planos. O futuro continua ali à frente — e agora sei que bate!
No fim de contas, viver é isto: perceber que é bom estar cá, mesmo com avisos colados ao peito e promessas feitas com letra pequena. O futuro, disseram-me, não pode ter garantia superior a 50 anos — o que, dito assim, é uma pechincha gloriosa. Cinquenta anos de vida sem tabaco, com um coração mais conhecido, mais cuidado e perfeitamente apto para continuar a bater por coisas simples e essenciais. Não é pouco. É imenso. É tempo suficiente para amar, errar, recomeçar e agradecer todos os dias o privilégio extraordinário de estar vivo.
Felizmente estou bem! Mexeram-me no coração mas contÃnuo igual, só gosto de quem gosta de mim! Não interessa se feios ou bonitos, interessa é que o meu coração bata por vocês!
Beijinhos (até para as feias), para os gajos, um abracito … E vamos lá entrar na 6ª semana sem tabaco!
Efemérides - Paulo Brites

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