Bem, já que Chegamos a 2026, faço uma Viagem às Minhas Viagens
Um dia contei-as, assim como quem conta os botões de um casaco antigo: Países e Estados, um a um, com a paciência distraída de quem sabe que aquilo não serve para nada. Cheguei aos 58. Podiam ser 57 ou 83 — dava ao mesmo. Os números são uma espécie de vaidade de contabilidade: parecem importantes, mas não aquecem, não comovem, não nos fazem melhores nem piores. São como aquelas fotografias tiradas à pressa, em frente a uma placa a dizer “Welcome to…”, que depois ficam esquecidas no telemóvel, misturadas com memes e recibos do supermercado que queremos conferir.
Viajar, se tiver algum sentido, não é isso. Não é colecionar carimbos no passaporte como quem coleciona cromos. Não é andar pelo mundo armado em espantalho turístico, de chapéu e câmara ao peito, a disparar fotografias a tudo o que mexe e ao que não mexe — uma porta azul, um prato de comida, um poste torto — só para provar que esteve lá. Esteve lá, sim. E depois? Esteve onde, afinal? No sítio ou em si próprio?
O que fica das viagens não cabe em álbuns nem em estatísticas. Fica cá dentro, como uma música que se entranha sem pedirmos licença. Fica um olhar que aprendemos numa rua qualquer, em Marraquexe ou em Bari. Fica uma maneira diferente de ouvir o silêncio, que talvez nos tenha sido ensinada por um comboio perdido na Europa ou por um café tomado devagar num balcão de Marselha a cheirar sabonetes. Essas coisas não se contam. Sentem-se.
Há uma beleza interior nas viagens que não tem nada a ver com as peneiras exteriores. Não tem a ver com dizer “já lá estive”, mas com perceber, por um instante, que somos mais largos do que pensávamos. Que cabem em nós mais pessoas, mais hábitos, mais maneiras de amar e de sofrer. Viajar, quando é a sério, é um exercício de humildade: o mundo não precisa de nós, mas nós precisamos desesperadamente dele para não ficarmos pequenos demais.
Por isso, os meus 58 Países e Estados são apenas um detalhe irrelevante. Podiam desaparecer da memória que nada de essencial se perdia. O que interessa é não nos perdermos a nós — não nos tornarmos bonecos de vitrina, sempre a posar, sempre a fingir que vivemos. O importante é voltar de cada viagem um bocadinho mais verdadeiro, um bocadinho menos espantalho, um bocadinho mais gente. Isso, sim, vale a pena.
Que a vossa viagem por 2026 valha a pena existir!
Paulo Brites - Viagens - Reflexões

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